Minhas Impressões: Django Livre (Django Unchained, 2012)


- segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
* Alerta de Spoiler: Este post discute livremente elementos de toda a trama do filme. Aqueles que não viram o filme e querem o ver antes, são encorajados a regressar depois de tê-lo visto. *


Antes de começar a falar de Django Unchained, vamos retroceder algumas décadas:

O western italiano surgiu em meados dos anos 1960 e o seu objetivo era tanto para compensar a redução do número de westerns americanos, como também a sua falta de ação. Filmado na Espanha por diretores que geralmente adotavam pseudônimos americanos, eles rapidamente se tornaram conhecidos pela violência, sadismo, cores fortes, enormes close-ups e músicas enfáticas. Nas versões dubladas e fortemente cortadas que atingiram o mundo, esses filmes eram tão brutais que ofenderam os poucos críticos que os viram.

No entanto, estes filmes tiveram um vigor e impacto considerável em Hollywood em seus últimos dias (especialmente aqueles com Clint Eastwood, o único ator americano a se tornar uma estrela através de trabalhos feitos na Itália), embora o nome de apenas um diretor italiano, Sergio Leone, tornou-se amplamente conhecido fora do mundo dos aficionados do gênero.

Este sub-gênero, conhecido pejorativamente como "faroeste-espaguete", terminou mais ou menos em 1978. Django Unchained vem como um marco, um revival brilhante do gênero, um aproveitamento admirável e hábil dos objetivos e propósitos do western spaghetti.

Jamie Foxx e Franco Nero
O nome Django era frequentemente usado na década de 1960 para os heróis vingativos e sem remorsos nos westerns italianos, mais especialmente do protagonista masoquista interpretado por Franco Nero, no Django de Sergio Corbucci, filme proibido na Grã-Bretanha por 25 anos por causa de sua extrema violência. Nero arrasta um caixão com uma metralhadora em torno de uma cidade corrupta pós-guerra civil sobre a fronteira mexicana e confrontos com a Ku Klux Klan.

Christoph Waltz e Jamie Foxx

No filme de Tarantino (em que Franco Nero tem uma participação especial), Django (Jamie Foxx) é um escravo fugitivo que forma uma aliança curiosa com o alemão itinerante e caçador de recompensas, Dr. King Schultz (Christoph Waltz, que mais uma vez tem uma atuação genial).

Schultz dá a Django um senso de independência próprio, canalizando a sua ira contra os seus exploradores. Django aprende questões práticas como a leitura e a manipulação de armas, e as mais complicadas, como "atuar" e ganhar tempo.

Leonardo DiCaprio
Django se mostra um astuto caçador de recompensas com um objetivo nítido. Mas acima de tudo, Django quer se unir novamente a sua bela e amada esposa, Broomhilda (Kerry Washington). A busca por Broomhilda, levam Schultz e Django até o mundo de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um aristocrata de Mississippi. Candyland é um símbolo do sadismo, da opressão, do roubo de identidade, da falsa afirmação de superioridade e da corrupção do espírito humano que estão por trás da escravidão. Candie, brilhantemente interpretado por DiCaprio, representa o auto-engano e a crueldade.


Na cena em que Schultz atira em Candie, podemos dizer que é uma atitude surpreendente considerando que o personagem de Waltz seja tão comedido e pensa detalhadamente em como executar todas as suas ações. Por isso chamo essa de uma "atitude incomum" que desencadeia um banho de sangue. Schultz diz "Sinto muito, eu não pude resistir", mas Schultz, pelo que sabemos dele, poderia muito bem ter resistido. Porém Tarantino não pôde resistir. Ele precisava do sinal para manchar tudo de vermelho.

Kerry Washington
Django Unchained é muito divertido, um conto de aventura ficcional, de um homem que tentando resgatar sua esposa, torna-se uma inspiração para os oprimidos, abraçando suas liberdade e travando vingança contra os seus opressores.

Para mim, um dos mais poderosos e catárticos momentos cinematográficos, é quando o Django pega um chicote e o usa em um de seus antigos proprietários, com um grupo de escravos observando com espanto algo que talvez nem sequer se atreveriam a sonhar fazer.

Foxx faz um ótimo trabalho como Django, mas as performances de Samuel L. Jackson, Christoph Waltz e DiCaprio são as mais memoráveis. O conjunto todo é uma verdadeira obra de arte western, e a trilha sonora está repleta de composições clássicas de filmes de faroeste, bem como uma canção de John Legend (Who Did That to You?) que torna o filme ainda mais indelével.

Graficamente representando os maus-tratos de escravos, Tarantino mostra a feiúra do racismo e oferece uma visão alternativa. O resultado é instigante.

Elenco memorável

Quentin Tarantino não se importa muito com a História em si, aquela que encontramos nos livros didáticos, a não ser que seja a História do Cinema. Ele cria seu próprio estilo de pedaços de fatos e de álbuns de imagens impressionantes. Em Django Livre, ele sinaliza cedo que detalhes não importam:

O filme começa em "1858, dois anos antes da Guerra Civil Americana" (que na verdade começou, como constam os registros históricos, em 1861) e "em algum lugar no Texas" (com isso ele quer dizer: não importa a cronologia e a geografia, apenas sinta a brutalidade).

Samuel L. Jackson
O fascínio de Tarantino pela linguagem vem à tona no conflito verbal, aterrorizante e cheio de tensão entre DiCaprio, o vilão loquaz, e Schultz, o democrata eloquente. Também tem os debates sobre escravidão, abolição o que torna este um filme poderoso com pinceladas dramáticas amplas e pontos psicológicos feitos com considerável sutileza e inteligência.

O mundo de Tarantino não é o mundo real. Ele não está fazendo um filme sobre a realidade. Ele está fazendo um filme sobre o cinema. E todos os seus filmes são assim.


Samuel L. Jackson e Leonardo DiCaprio estão fantásticos, é impressionante como eles devoram seus personagens. E Foxx incorporou de maneira assustadora o estilo western. Tarantino tem um nicho próprio e ele é mestre no que faz. Ele sabe como contar histórias e sabe extrair o melhor dos atores. Tarantino e o diretor de fotografia Robert Richardson criaram lindos visuais panorâmicos da paisagem, que de certa maneira fornecem um contraponto para o banho de sangue que tem ao longo de todo o filme. Tarantino tem uma paixão avassaladora pelo cinema, e ele nos cativa e nos contagia com tal paixão e Django Livre mereceu a indicação ao Oscar, com toda certeza.



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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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1 comentário:

Bob Mota comentou:

Caramba, que postagem de qualidade! Incrível como você analisa bem o filme em seus aspectos sem tornar a postagem chata e longa. Adorei o filme e a forma como você falou sobre ele também! Parabéns!

p.s.: Estava com saudades do seus blog.

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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