Minhas Impressões: Perfect Blue (1997) - Satoshi Kon


- terça-feira, 17 de janeiro de 2012
* Alerta de Spoiler: Este post discute livremente elementos de toda a trama do filme. Aqueles que não viram o filme e querem o ver antes, são encorajados a regressar depois de tê-lo visto. *


Perfect Blue é como um thriller Hollywoodiano, só que se passa no atual Japão. É um suspense emocional, bastante sutil, no estilo anime. É dirigindo pelo magistral Satoshi Kon que acrescenta um nível adicional de riqueza para o que já é um psicodrama sólido. Tenso, cativante e inteiramente satisfatório. Posso ousar dizer que não fica a dever se comparado aos trabalhos de Alfred Hitchcock. Também ouso falar que Cisne Negro possui elementos muito semelhantes a essa trama.

A construção básica do filme é simplesmente uma análise a respeito da indústria de entretenimento japonesa e sua manipulação muitas vezes questionável de estrelas jovens. Perfect Blue, como um filme de animação, aborda temas realistas, assim como personagens realistas. O olhar austero do filme em vários temas lembra muito a nossa sociedade atual e os conflitos psicológicos que surgem a partir deles são muito reais. 


O filme é sobre uma jovem mulher chamada Mima Kirigoe, que fazia parte de um trio pop chamado CHAM!. Depois de ganhar muita fama com esse grupo, ela decide deixá-lo a fim de prosseguir com uma carreira de atriz. Esta decisão acaba se tornando uma mudança muito abrupta em sua vida e ela acaba assumindo a imagem de uma personagem mais madura aos olhos do público. Começa com um pequeno papel em um drama de TV chamado "Double Bind", em que sua personagem se torna muito popular. Infelizmente, algumas das coisas que ela deve fazer para alcançar esse estrelato entram em choque com suas próprias convicções, como fazer cenas de sexo e pousar nua para revistas masculinas. A imagem de garota pop inocente já não existe mais. 


A forma como o filme transmite a deterioração de Mima é muito psicológica e apresentada com muita firmeza. Realidade e alucinações se fundem em um submundo aterrorizante onde a inocência é perdida e os sonhos se tornam pesadelos. Em um perigoso estado de delírios paranóicos, sites e Internet, Mima descobre que alguém descreve todos os detalhes íntimos de sua vida. Impotente e com medo, ela encara tudo como uma ameaça. 


Perfect Blue trabalha fantasticamente bem em duas frentes. Enquanto a primeira metade do filme se desenrola como um thriller sobre um psicopata que se preocupa com o destino da carreira de Mima, a segunda metade do filme difere drasticamente desta narrativa estabelecida. 


A linha entre o mundo real e o mundo fictício criado por seu papel na televisão ficam tênues, e o filme entra em um questionamento constante sobre a própria identidade de Mima e por causa do realismo estabelecido por essa atmosfera, até mesmo nós que estamos assistindo compartilhamos dessa dúvida.

Acredito que Satoshi Kon tenta questionar a própria personalidade de Mima. Oferecendo um olhar para as ansiedades e pressões de um setor que depende muito da imagem construída. Perfect Blue, certamente não se retira do reino do realismo. Este elemento é o que assegura o filme como um importante exame, quase satírico, em um confronto com um elemento dentro da esfera de entretenimento que garante o distanciamento da própria identidade, a fim criar uma nova percepção. 


Estes são elementos que contribuem para que Perfect Blue seja muito mais do que simplesmente um filme em torno de um perseguidor suspeito. É um testemunho da indústria de entretenimento japonês e suas falácias diversas. O filme fornece um olhar minucioso sobre o que constitui a imagem de ídolos e sua dominação de identidade.


Isso tudo junto culmina em um trabalho notável e certamente uma das contribuições mais críticas do diretor para o mundo da animação. Visualmente, o filme também é muito bom. O que esperar de um trabalho dos estúdios Madhouse?

O filme brinca com sua mente e os desafios dela. Se você é fã de bons filmes (e não apenas de bons animes), Perfect Blue é "perfeito". Porém, absolutamente não é um filme para crianças. Você tem que ser muito maduro para assistir a este filme e não ter pesadelos por uma semana depois, pois há cenas fortes que contém violência explícita, estupro e nudez.



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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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4 comentários:

Bob Mota comentou:

Bela análise! Eu ainda não assisti mas sou louco pelas obras do Satoshi Kon. Ele é incrível, tudo o que faz é de impressionante qualidade e muito profundo!
Vou procurar urgentemente por esse filme! Obrigado pela dica e, como sempre, você escreve impecavelmente! Parabéns! E amo ler seus textos!

Pedrinho Costa comentou:

Já tinha visto Perfect Blue há algum tempo, e agora estou motivado a revê-lo. Admito que eu acabei o subestimando um pouco no começo, não levei muito a sério pelo fato de ser uma animação, porque apesar de sempre ter sido um grande fã de animes e desenhos em geral, nunca chegava a considerá-los filmes muito "sérios". Mas depois de ver Perfect Blue (e um tempo depois Akira e Metropolis), mudei completamente o meu conceito, tanto sobre o filme como sobre animações em geral.

Não tinha reparado antes, mas agora que você apontou, percebi que Perfect Blue e Cisne Negro têm realmente muitas coisas em comum. Ambos contam mais ou menos a mesma história, a de uma garota inocente que tem seu lado obscuro desenvolvido em vista de sua carreira artística. Também tem alguns momentos de Cisne Negro que lembram muito Perfect Blue, como os encontros entre Nina e seu "eu" do espelho ou a cena dos desenhos na parede.

Agora um diferencial que pra mim foi muito importante em Perfect Blue é a qualidade da animação. Mesmo sendo feito no final da década de 90, o visual do filme deixa muito anime do século XXI no chinelo!

Enfim, meus parabéns pelo ótimo post! Acaba de ganhar mais um leitor assíduo. =)

* Andhora Silveira * comentou:

@Bob Mota Minha meta é assistir a todos os filmes de Satoshi Kon... ele é muito bom no que faz. Muito obrigada pelos elogios... posso dizer o mesmo de você. :)

* Andhora Silveira * comentou:

@Pedrinho Costa Estou muito feliz com o seu comentário. Amo discutir essas coisas e quando acho alguém que gosta também..... :)

Eu na medida em que ia assistindo o filme, ia percebendo as semelhanças que Cisne Negro tinha com ele... daí cheguei a conclusão que seja bem possível que tenham se inspirado nesse filme para criar a personagem...

É um filme tenso... um verdadeiro suspense. Vale muito a pena revê-lo! Se você ainda não assistiu Paprika, recomendo também. É do mesmo diretor :)

Muito obrigada por sua visita e comentário!

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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