Minhas Impressões: La Planète Sauvage (Planeta Fantástico, 1973)


- segunda-feira, 29 de agosto de 2011
* Alerta de Spoiler: Este post discute livremente elementos de toda a trama do filme. Aqueles que não viram o filme e querem o ver antes, são encorajados a regressar depois de tê-lo visto. *


"O nosso planeta Yon possui um único satélite, Planeta Fantástico. Nós utilizamos este planeta desabitado para a meditação. Yon é dividido em vários uves. Dois dos uves, Strohm e Yaht, são naturais e simétricos..."

A partir dessa introdução irei comentar um pouco a respeito de um filme/animação que tive a oportunidade de assistir recentemente, "La Planète Sauvage", que seria traduzido literalmente como "O Planeta Selvagem", mas que recebeu o nome de "Fantastic Planet" e aqui no Brasil, Planeta Fantástico.

Esta foi uma animação dirigida pelo francês René Laloux em 1973 (pra falar a verdade esta foi a primeira vez que ouvi falar nesse diretor) e foi baseado na série de romance "Oms En Serie", de Stefan Wul.

Se trata de um trabalho bastante peculiar e pude observar que é frequentemente rejeitado pelos espectadores, que alegam que a animação é primitiva, sem sofisticação técnica de movimento fluido e integrado de ambientes isométricos.


No entanto, esta alegoria da regressão humana e do renascimento, que usa a convenção de ficção especulativa de simbolismo por escala (os Oms, que são seres humanos tratados como animais de estimação pelos Traags, alienígenas transcendentalistas gigantes e azuis) demonstra uma sofisticação psicológica e da tradição da arte que vai além das animações infantis da Disney e o método americano, é um estilo próprio.

Os Oms (seres humanos) se auto-destruíram em seu planeta, a Terra, e os que foram salvos agora estão em um estado que eu considero uma regressão, pois assemelha-se a algo como a Idade da Pedra e vivem agora no Planeta Yon. Os Oms domesticados vivem no Parque e nas casas dos Traags, já os Oms selvagens vivem além da curiosa e estranha floresta deste planeta. 


A condição humana no filme é determinada logo no início quando vemos uma mulher e seu bebê sendo feitos de brinquedo por crianças Traags. Isso me lembra quando um grupo de crianças se juntam para "caçar insetos", por exemplos. Acredito que analogia é essa. As crianças Traags acabam matando a mãe, e o bebê fica só. O bebê é descoberto mais tarde por dois Traags que passeiam, Tiva e seu pai, um dos mestres do planeta que tomam decisões em todos os âmbitos de sua sociedade.

Assim como a filha do Faraó encontra e adota Moisés na Bíblia, Tiva leva o bebê para casa e inadvertidamente acaba passando para a criança até a sua fase de adolescência importantes informações sobre os Traags, os planetas, etc. durante suas aulas que são lecionadas de forma subliminar por um dispositivo semelhante a um fone de ouvido. Vale ressaltar que neste planeta os seres humanos envelhecem bem mais rápido que os Traags, por exemplo uma semana nesse planeta foi o suficiente para que o bebê atingisse a fase de sua adolescência.


O ser humano foge levando o dispositivo que contém todo o conhecimento dos Traags e acaba se juntando a uma tribo de Oms, revelando todos os segredos e oferecendo subsídios para que os humanos possam revidar a maneira como são tratados neste planeta.

Embora existam muitas cenas surpreendentes nesta animação, o clímax é quando ocorre "Omization" (extermínio dos Oms com gás venenoso), e quando os Oms conseguem construir dois foguetes espaciais para a fuga desse planeta e acabam aterrissando no satélite que orbita Yon descobrindo um grande segredo dos Traags. Eles encontram grandes estátuas "decapitadas", como se fossem efígies esquecidas de uma civilização perdida. Este é o "Planeta Fantástico", e eles conseguem observar um conjunto de Traags vindos de toda a galáxia, encontrando-se neste local para o acasalamento e reprodução. Quando amadurecem, os Traags navegam para este campo como semi-deuses em esferas que flutuam como bolhas ou esporos e unem-se aos ombros da estátua, cada um no gênero apropriado. As estátuas, em seguida, começam a dançar em pares, em um ritual que permite a estes seres astrais o necessário para a reprodução e a continuação de sua espécie.

Em perigo de serem esmagados, as duas naves Oms acabam abrindo fogo com suas armas de raios, rompendo o ritual dos Traags e causando um caos em Yon, onde os Traags estavam em contato telepático com suas esferas. Confrontados com o desastre, eles imediatamente abrem negociações com os Oms e a paz segue, baseada em uma nova ordem: um satélite artificial chamado Terra (em homenagem ao seu planeta ancestral) é lançado e, doravante, ambas as culturas ficam livres para progredir em harmonia, mas com culturas espiritualmente independentes.

Para mim, a história foi surpreendente, um tanto sombria, porém sublime. As imagens do filme são fantasmagóricas, surreais e magníficas. É um exame acerca do racismo e intolerância. É grotesco, mas ainda assim gracioso. Uma visão alucinatória muito diferente de tudo que já vi.

Os gráficos são obviamente extraídos da tradição da pintura de galeria, composições estruturadas em termos de estase, espaço bidimensional, e o artifício simbolista dos surrealistas. O roteiro é conduzido através do simbolismo dos sonhos, e nas entrelinhas por história e política. A trilha sonora é bem psicodélica também, bastante apropriada ao contexto do filme.

A ficção científica da história é incrível, um verdadeiro deleite para aqueles apaixonados pelo gênero. O filme possui cenas de nudez inofensivas, mas nada que impeça toda a família de assistir. Recomendo.


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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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6 comentários:

Bob Mota comentou:

Com certeza essa animação é obrigatória para qualquer fã de ficção científica. Ele é mais do que uma animação sobre o futuro, ele trás uma série de questionamentos sociais e políticos. É bem feito e bem amarrado. Eu gostei muito mesmo! E você está de parabéns pela excelente resenha!

Guilherme Arruda comentou:

Gostei do post, confesso que tinha ignorado pelas ilustras toscas mas depois de ler fez muito sentido!!
Vou tentar achar esse filme...
=)

* Andhora Silveira * comentou:

@Bob Mota: Depois quero ver a sua! Estou esperando :)

* Andhora Silveira * comentou:

@Guilherme Arruda De fato, as ilustrações podem causar um pouco de repulsa (não sei se é bem esse o termo), porque é algo que não estamos acostumados a ver. Mas é uma obra muita rica, diferente... peculiar... Eu recomendo :) Procure mesmo! ^^

rafael comentou:

tenho uma duvida sobre o filme. yon é o planeta terra, se for, de onde veio a flora e fauna. se não for, como os humanos chegaram la?

* Andhora Silveira * comentou:

@rafael Os seres humanos se auto-destruíram e por consequência acredito que acabaram com o planeta Terra também. O planeta que você vê no filme é o planeta dos Traags, que são esses seres humanóides gigantes e azuis. Eles levaram os seres humanos para o seu planeta e os "domesticaram".

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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