Minhas Impressões: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)


- quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011


"Laranja Mecânica" (Clockwork Orange) não é um filme fácil de se absorver. Curiosamente, o sexo e a violência neste filme são mais fáceis de se digerir do que a sátira afiada proposta pelo diretor Stanley Kubrick ao abordar a questão da desumanização das pessoas.

O título do filme é polêmico e, na minha interpretação, ele faz alusão a:

* Um mecanismo de relógio (mecânico, artificial, robótico), ser humano (cor laranja? - Semelhante ao de orangotangos? Uma criatura peluda como um macaco, talvez?), ou
* Algo bizarro e mecânico internamente, mas aparentemente natural, humano e normal superficialmente (?)

O filme é assustador, arrepiante e torturante, um verdadeiro jogo de moralidade que levanta muitas questões e nos faz intrigantes indagações:

"Como o mal pode ser erradicado na sociedade moderna?";

"Se o Estado pode privar um indivíduo de seu livre arbítrio, tornando-o "Uma Laranja Mecânica", o que isso diz a respeito do pesadelo, tecnologias de modificação de comportamento, de punição e crime?";

"Não perderemos a nossa humanidade se formos privados da escolha entre o bem e o mal?";...

A imagem de abertura memorável é uma marca do estilo de direção e produção de Stanley Kubrick: uma imagem em perspectiva íntima dos olhos azuis e do rosto sorridente do jovem entusiasmado e violento Alex DeLarge (Malcolm McDowell), usando um chapéu e com um falso cílio adornando o seu olho direito. Suas abotoaduras parecem globos oculares a fitar-nos.



Alex representa o líder anti-heróico e majestoso Alexandre, o Grande, mas neste caso, "A-lex" - um homem sem lei. "A-lex" significa literalmente "sem lei". Os droogs (membros de sua gangue) possuem nomes russos, por exemplo, Dim é provavelmente uma versão abreviada de Dimitri.

Laranja Mecânica é contado em três atos. O cenário é uma cidade fictícia situada em algum momento do futuro próximo. A criminalidade é pulsante nessa sociedade e as prisões são tão lotadas a ponto de atingir níveis de emergência. Gangues de jovens perambulam pelas ruas, entrando em um reino sem controle de terror (horrorshow). Qualquer azarado que cruze o caminho deles pode ser estuprado, assaltado, espancado, assassinado, ou uma combinação destes.

O governo, ansioso para limpar as prisões, testa um novo método de reabilitação. Ao expor um prisioneiro a inúmeras imagens de sexo e violência enquanto bombardeia seu corpo com drogas que causam ondas nauseantes, os médicos são capazes de desenvolver uma resposta negativa e repulsiva da cobaia às atividades imorais e ilegais. Assim, os atos contra a sociedade se tornam intrinsecamente ligados a uma doença insuportável, e essa lavagem cerebral feita no criminoso é capaz de gerar a re-inserção social e produtiva, tornando-o uma espécie de zumbi.

Alex DeLarge (Malcolm McDowell) é o líder de um quarteto de "droogs" que passam suas noites envolvidos em uma série de atividades repugnantes. Eles espancam bêbados desamparados, invadem casas e estupram as mulheres e brigam com gangues rivais. Um dia, porém, atritos se desenvolvem no grupo. Dois dos quatro integrantes, Dim (Warren Clarke) e Georgie (Marcus James), manifestam a falta de vontade de continuar a seguir cegamente a liderança de Alex. Sua resposta é negativa a ambos. Então os droogs resolvem se vingar de Alex o entregando a polícia. Ele é julgado, condenado e sentenciado a 14 anos de prisão.

Na prisão, ele desempenha um papel de um prisioneiro modelo, ganhando a confiança do padre que ensinava religião, porém Alex continua o mesmo desvirtuado de sempre. Depois de saber sobre o programa do governo de reabilitação experimental, ele se torna um candidato. Alex acaba sendo selecionado e submetido ao procedimento, em seguida, enviado de volta e desamparado no mundo violento do qual ele foi produto. Logo ele se torna uma peça utilizada pelo governo.

Muitos que assistiram "Laranja Mecânica" ficam sem entender o que isso significa. E para aqueles que tomam tudo apresentado na tela de uma maneira direta, uma certa confusão terá.

Mas assim como em "1984" de George Orwell e outras sátiras políticas futuristas, Laranja Mecânica é para ser entendido como uma peça alegórica: ora humor negro, ora drama. O filme tem como objetivo denunciar métodos ineficazes e desumanos, muitas vezes concebidos pelos governos para conter o comportamento criminoso. Depois há a questão de refletir se é correta a remoção do livre-arbítrio que destrói a humanidade essencial de um indivíduo.

O Estado tem o direito de fazer isso para matar o reflexo criminoso?

Será que a execução do indivíduo seria um destino preferível?

Por fim, Kubrick nos mostra o caráter volúvel da opinião pública. Aqueles que elogiam os métodos do governo um dia estarão julgando-os.



Embora o conteúdo temático e a forma do enredo possui fundamentos inabaláveis, é o estilo que o eleva ao nível de obra instigante para um verdadeiro clássico.

Estilo sempre foi um dos pontos fortes de Kubrick. O diretor manteve a reputação de uma atenção obsessiva aos detalhes. A linguagem do filme é uma mistura de expressões comuns, com expressões shakespearianas.

A cenografia é impecável, sugerindo um futuro que é ao mesmo tempo familiar e estranho, onde os detalhes comuns da vida cotidiana são um pouco distorcidos.

Outro ponto forte é a trilha sonora com a 9ª Sinfonia de Beethoven, "The William Tell Overture" e "Singin' in the Rain" de Frank Sinatra.

Imagens distintas desempenham um papel importante nos filmes de Kubrick. Em "2001: Uma Odisseia no Espaço", as imagens foram essenciais. "Laranja Mecânica" não oferece o mesmo tipo de caleidoscópio visual, mas tem seus momentos. Um deles é o de quatro estátuas de Cristo crucificado posicionado de modo que eles parecem estar cantando em uma linha de coro. Outra é quando Alex estupra e mata uma mulher com uma escultura gigante de pênis. Um terceiro ponto seria as constantes imagens de mulheres nuas em posições submissas e obscenas ao longo de todo o filme.

"Laranja Mecânica" é um ícone no gênero de ficção e possui um material muito polêmico. É uma confusão ideológica, uma fantasia paranóica que aparece como um alerta orwelliano.

É um trabalho brilhante e obscuramente poético, capaz de encantar e causar desgosto. Precisa-se de um estômago forte para lidar com as cenas de violência. É um filme que, do início ao fim, escorre ironia. Por essa razão, Laranja Mecânica deve ser considerado um marco do cinema moderno.


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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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1 comentário:

Bob Mota comentou:

Eu gostei muito do filme.
O filme não só critica o estado, mas também o papel da família nisso tudo.
É bem isso que você falou. Gostei demais desta resenha.

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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