Minhas Impressões : Steamboy (2004)


- segunda-feira, 10 de janeiro de 2011


Em 1988, Katsuhiro Otomo dirigiu o deslumbrante anime de ficção científica "Akira". Ofegante, denso, e psicodélico, o rico enredo de "Akira" foi acompanhado por uma animação de encher os olhos. Quase duas décadas depois, Akira ainda permanece como um marco do gênero. "Steamboy", o primeiro anime de Otomo desde "Akira", oferece uma sensação de forma semelhante ao anterior, mas com uma história muito mais acessível e convencional.

Situado na era vitoriana (1866, para ser mais precisa), a história levemente complicada começa com um acidente de trabalho numa empresa do Alasca, presidida pela equipe formada por pai e filho, Lloyd e Edward. O velho Lloyd, em polvorosa pela descoberta que está prestes a fazer, insiste na abertura total de uma das válvulas e acaba causando uma grave explosão, ferindo gravemente Edward, que tentava impedir o desastre.



A ação desloca-se para Manchester, onde o seu neto Ray Steam recebe um pacote contendo a "Steamball" desenvolvida por Lloyd, bem como os esboços do projeto. Ray é instruído a manter o aparelho longe das mãos da Fundação O'Hara, uma empresa americana empresarial que empregava Lloyd e Edward, mas ambos são sequestrados pela empresa. Ray fica surpreso ao encontrar seu pai, agora desfigurado em uma combinação de "O Fantasma da Ópera" e do monstro de Frankenstein, ainda trabalhando para O'Hara, que agora é presidida pela detestável neta do fundador, a garota Scarlett. A Steamball é uma fonte de energia poderosa, cheia de um líquido misterioso extremamente puro e altamente condensado, pressurizado na esfera. Edward quer aproveitar essa nova fonte de energia para empulsionar a humanidade para o novo século. Eles precisam da Steamball para alimentar um monstro mecânico diferente de tudo o que o mundo já viu e cabe a Ray detê-los.

Infelizmente, a Fundação O'Hara ganha seu lucro com o desenvolvimento de armamentos para a guerra, e Lloyd teme as consequências de deixar a Steamball em suas mãos. A Fundação O'Hara demonstra o seu mais novo armamento, fazendo seus testes na própria Londres, desencadeando uma guerra de pequena escala e destruindo grande parte da cidade no processo. Ray consegue improvisar um dispositivo de voo e ajuda a evitar um desastre ainda maior, resgatando a Scarlett, que já se apresentava bastante envolvida com as causas de Ray e perplexa com a carnificina causada pelas armas de sua Fundação.



Steamboy é uma produção de qualidade sob o ponto de vista de todos os ângulos. O enredo não é confuso, como o de Akira. O filme é reto, preciso e com objetivos bastante definidos. Apresenta personagens com perspectivas e motivações bem definidas para o público. O filme tem alguém por quem você possa torcer, alguém para odiar, alguém para rir e possui uma simples questão filosófica que nos leva a refletir sobre a natureza do progresso: é um pacote completo.

Embora, claramente, o filme busque inspiração no estilo e na estrutura dos filmes ocidentais, Steamboy ainda mantém a sensibilidade japonesa para imbuir-se de uma simples questão filosófica que conduz a narrativa do filme. Ray está dividido: seu avô Lloyd, que tem como filosofia a ciência para o bem do homem, e o presidente da Fundação O'Hara que quer a "ciência pela ciência" de maneira destrutiva. O filme é instigante, inteligente, emocionante, ativo, simplificando, é uma obra-prima.

Visualmente, o filme é um banquete. Eles combinaram com sucesso elementos de 2D e 3D. O cenário luxuoso e detalhado da era vitoriana é fantástico para um filme de ação. O filme usa Computação Gráfica com moderação, contando sobretudo com a animação tradicional. Muitas vezes, em filmes de ação de grande orçamento como este, vemos a história inventar uma série de artifícios decepcionantes a fim de incrementar a ação. Steamboy cuidadosamente evita esta armadilha e utiliza as forças visuais para contar a história ao invés de guiá-la.



Gosto tanto de "Akira" quanto "Steamboy". Eles retomam o tema apocalíptico pós-Hiroshima japonês comum nos animes de ficção científica. Otomo acrescenta um toque final, quando ele transforma o cogumelo de fumaça comum nas explosões de bombas, em uma linda flor congelada, a antítese do vapor.

O filme apresenta equipamentos e máquinas inspiradas na literatura de Julio Verne (máquinas voadoras, submarinos, dirigíveis, etc.). Logo no início há uma cena maravilhosa de perseguição envolvendo o monociclo a vapor de Ray, um trator a vapor, e um trem, que termina com um dirigível. As cenas de batalha são emocionantes, sem ser graficamente violentas como as de Akira.

É óbvio que nenhuma despesa foi poupada na preparação desta magnífica obra para os olhos e ouvidos. Não consigo nem descrever minuciosamente cada cena, pois cada uma é única. Fiquei impressionada com tudo que vi e ouvi. A paisagem belamente retratada da Inglaterra parecia que tinha ganhado vida na tela, enquanto que a cidade de Londres ficou tão autêntica quando retratada em sua época de industrialização.

(Eu me pergunto se Katsuhiro Otomo não seria um fã de "E o Vento Levou". Ele utiliza o nome de Scarlett O'Hara ao colocar este nome na garota.)


O filme não é perfeito, mas está perto de ser. É um espetáculo para os olhos e ouvidos. Steamboy é uma obra de arte, algo que deve ser amado por fãs de anime, não-fãs e famílias.



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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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1 comentário:

Bob Mota comentou:

São animes como esse que nos fazem entender o porque desse tipo de entretenimento, no Japão, não ser tão diferente de filmes live-action ocidentais.
Sinceramente Steamboy não fica devendo em nada a certos filmes que vemos por aí.

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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