Minhas impressões: Paprika (2006)


- terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Quanto mais mistério, mais mágico algo se torna. Isto é verdade para a maioria das coisas. Para quem não sabe nada sobre computadores, a ideia de internet é algo misterioso, maravilhoso e por vezes assustador. Para quem nunca viajou, terras distantes parecem uma realidade intangível.





Esta é a ideia explorada pela ficção, seja através de livros ou filmes. É a base para os mitos e religiões que especulam a forma como o mundo funciona e porque foi criado, e a ficção científica especula mais além. Nosso senso de admiração é o que nos torna humanos e é o que nos leva a descobrir coisas novas.

Nesse contexto, a psique humana é um dos maiores mistérios. Existem inúmeras teorias por trás da lógica e da emoção humana, mas a essência da humanidade permanece enterrada dentro de nós. Visto que é algo intangível, não é fácil explorar e testar novos conceitos. Podemos saber muito sobre o nosso hardware, mas nossos sistemas operacionais ainda são um mistério.

Produzido pela Madhouse/Rainbow SPA e distribuído pela Sony Pictures Classics, Paprika (2006), filme dirigido por Satoshi Kon, baseado no romance do escritor de ficção científica Yasutaka Tsutsui, é um filme/anime de ficção científica que explora essa fronteira entre o imaginável e o real.

O filme começa com o detetive Konakawa Toshimi sendo aconselhado por Paprika, uma mulher de cabelos vermelhos e espírito jovem: "uma mulher dos sonhos". Em uma das sequências iniciais do filme, Paprika analisa a sequencia dos sonhos do detetive, que envolve um possível assassinato. Ela compartilha mais do que uma semelhança passageira com a Dra. Atsuko Chiba.



Como se percebe ao longo do filme, Paprika não é uma mulher real, é na verdade o alter ego da Dra. Chiba, uma pesquisadora de psicanálise. Usando o "DC Mini", um dispositivo experimental que permite a visualização dos sonhos de uma pessoa através de imagens pelo computador, a Dra. Chiba entra nos sonhos das pessoas, na forma de Paprika, com o objetivo de tratá-las.

O que ela vê é registrado. Os dados podem ser analisados. Os problemas podem ser solucionados. As possibilidades são infinitas para o tratamento.

Esse comportamento de Chiba pode ser visto como um distúrbio de personalidade múltipla, mas existem indícios de que isso é intencional por parte dela. Paprika lhe permite chegar mais perto de seus pacientes, para se tornar uma espécie de "amiga íntima" e para criar vínculos com seus pacientes podendo assim compreendê-los.

Atsuko Chiba, no laboratório, é a voz rígida da ciência. Não é à toa que ela é a líder da equipe, sendo esta formada por uma série de cientistas excêntricos. Seu principal aliado é o Dr. Tokita, "garoto-gênio" obeso que inventou o dispositivo DC Mini. Apesar de sua aparência, ele é um homem realmente bom. Mas o laboratório entra em pânico quando os seus protótipos são roubados. Os membros do laboratório estão conscientes de que alguém pode utilizar o dispositivo para entrar deliberadamente nos sonhos de outras pessoas, causando, dessa maneira, graves danos. Uma série de acontecimentos malucos começam a atingir as pessoas, que não sabem mais diferenciar a realidade do mundo onírico.

Isso, naturalmente, solidifica a crença do presidente da empresa de que sua equipe pode ter invadido o território sagrado do mundo dos sonhos - o último refúgio da humanidade que a ciência não reduziu a uma ficha de dados - e só reafirma a sua vontade de encerrar o projeto. Mas com o dispositivo em estado de testes e nas mãos de alguém com más intenções, Atsuko não pode descansar até que descubra quem o "psico-terrorista" poderia ser.

Dra. Chiba evita lidar com suas emoções e enfoca a ciência, enquanto que o detetive Toshimi é assombrado por um pesadelo recorrente que remete a algum fato passado da sua vida, mas que ele não consegue discernir o significado. As histórias de Chiba e Toshimi se entrelaçam ao longo do filme na busca da verdade e, no caso da Dra. Chiba, da descoberta do que está ausente em sua vida.



Paprika é uma espécie de heroína do mundo dos sonhos e ela traz ao filme uma alegria incontida. Os sonhos podem ser caracterizados como algo que podem nos trazer a felicidade, mas quando manipulados por alguém, ou por nossos próprios medos, os sonhos podem se tornar uma ferramenta potencialmente maléfica. E é nesse contexto que com pouco esforço, Satoshi Kon cria o ambiente perfeito de suspense e medo. Ele nos desafia a explorar nossos próprios preconceitos sobre "quem somos", e os mundos em que vivemos.

A Madhouse está no topo absoluto com este filme. Efeitos 2D e 3D formam entidades que coabitam a tela. As imagens são tão realistas que parecem quase respirar e ganhar vida e o mundo dos sonhos é verdadeiramente deslumbrante. O traço do desenho é igualmente deslumbrante, elegante e inspirador e a paleta de cores é viva e única.

Apesar do visual do filme, algumas pessoas que estão acostumadas com o hiper-realismo da maioria dos filmes de ação e ficção científica, poderão rejeitar a lógica e a narrativa do trabalho de Satoshi Kon. Eu suspeito que haverá um monte de comentários negativos julgando este filme, mas considero a maioria destes argumentos descartáveis. Basta ter sensibilidade perante este grandioso trabalho de Kon.



Eu me pergunto quantas pessoas serão realmente capazes de se libertarem de suas realidades (pois o filme exige isso), e serem capazes de enfrentar o mundo dos sonhos como os personagens fizeram. O mundo retratado no filme é uma mistura absurda de experiências de vidas reais, pensamentos e desejos ocultos e a cultura que compõem nossas vidas.



Uma imagem recorrente no mundo de sonhos neste filme, é o desfile (parada) de ícones culturais e criaturas estranhas, que marca todos os pontos de clímax. A arte está cheia de imagens coloridas e cinéticas, fazendo da cena uma festa visual e a trilha sonora que a acompanha é primorosa e bem peculiar.

Acredito que quando dirigiu este filme, Satoshi Kon estava bem ciente de que, por tudo o que aprendemos, perdemos algo, e neste mundo moderno de descobertas, é claro que nós deixamos algo para trás. Ele treina sua mira temática sobre a loucura coletiva da sociedade. Kon adere aos estilos apocalípticos próprios dos animes, mas suas visões raramente têm o imediatismo caracterizado em algumas séries. Apesar do filme ser visualmente chocante, Kon está mais obsessivamente preocupado com os gatilhos psicológicos que fazem de seus personagens tão intimistas. No mundo de Kon, a ação é um pensamento posterior, pré-requisito que esconde suas verdadeiras intenções mais profundas.



Resumo este trabalho como sendo único, abrasivo e inspirador. Se você é fã do genial diretor Satoshi Kon, ou ainda não conhece seu trabalho, recomendo o deslumbrante e futurista filme Paprika.



Leia também: Paprika - Resenha (Nerdices e Afins)



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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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1 comentário:

Bob Mota comentou:

Eu fico deslumbrando com sua forma de escrever. É bem técnica e formal, mas não é estafante.
Eu concordo com o que você falou, realmente você fez uma análise do filme.
E me sinto lisonjeado em ter meu blog citado em um dos seus artigos.
Excelente análise.

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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