A internet estaria nos deixando burros?


- sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Estava lendo um post no "Blog do Mestre Chassot", em que ele apresenta um tema bastante polêmico: "A internet estaria nos deixando burros?". No seu post, ele cita o lançamento do livro de Nicholas Carr, "The Shallows - What the Internet is Doing to Our Brains" (No Raso - O que a Internet Está Fazendo com os Nossos Cérebros"), que será lançado no Brasil pela Editora Agir.



Confesso que estava pensando sobre isso um dia desses. A internet se tornou uma benção para mim. Uma pesquisa que antes me exigia horas e horas nas estantes de bibliotecas, agora pode ser feita em minutos. Está com dúvida em algo? Ora, Google it. Em qualquer lugar podemos estar conectados. A informação chega de instante em instante. Sempre estou lendo notícias via internet, assistindo vídeos, lendo os feeds de blogs e sites de entretenimento, ouvindo podcasts, etc. Para mim, assim como para muitas outras pessoas, a internet se tornou um meio universal para a canalização da informação, que flui através dos nossos olhos, ouvidos e mentes. Ela fornece material informativo, mas também molda de maneira diferente o nosso processo de pensamento.

A leitura não é uma habilidade instintiva dos seres humanos, certo? Não está gravada em nossos genes. Temos que ensinar e exercitar nossas mentes a traduzir os diversos símbolos que vemos. A mídia e outras tecnologias que usamos ajudam na prática da arte da leitura e desempenham um papel importante na formação dos circuitos neurais dentro de nossos cérebros. Os experimentos demonstram que os leitores de ideogramas, como o chinês, desenvolvem um circuito mental para a leitura que é muito diferente da encontrada nos circuitos mentais de nós, cuja linguagem escrita emprega um alfabeto. As variações se estendem por várias regiões do cérebro, incluindo aqueles que governam funções cognitivas essenciais como a memória e a interpretação dos estímulos visuais e auditivos. Obviamente, podemos esperar que os circuitos construídos pelo uso da internet são diferentes daqueles que são construídos com a leitura de livros e outros impressos.

É revelador e angustiante comparar os efeitos cognitivos da Internet com os de uma tecnologia da informação anterior, como o livro impresso, por exemplo. Considerando que a Internet espalha a nossa atenção e o livro, a concentra. Ao contrário da tela, a página promove contemplação.

Os links são uma ótima conveniência, como todos nós sabemos. Mas eles também são distrações. Às vezes, eles são fontes de distrações grandes. Agora, você provavelmente está feliz porque você tem os vastos recursos de toda a internet ao seu alcance. É um sentimento de poder, não é? Todas as informações e todo o conteúdo? Novos estudos revelam que as pessoas que se habituam com a leitura de hipertextos, aprendem menos.

Não deveríamos nos sentir assim tão bem com isso, afirma o escritor Nicholas Carr, em seu artigo para o The Atlantic Monthly, com o provocativo título "Is Google Making Us Stupid?" (Google está nos tornando burros?). Carr diz que, enquanto a Internet nos permite obter muita informação com muita rapidez, também nos incentiva a não olhar para ela com olhar crítico e pensativo. Na verdade, argumenta Carr, quando cedemos aos impulsos naturais para clicar em um link, ao invés de ler e pensar, a internet pode realmente nos fazer um serviço reverso: Reduz a abrangência da nossa atenção e até mesmo inibe a nossa capacidade de ler livros mais longos e artigos.

Ele diz que a Internet está realmente começando a mudar a nossa maneira de pensar. "Isso torna mais difícil, mesmo quando estamos off-line para ler livros", diz ele. Não é só do Google que Carr está falando, mas sim de toda a estrutura e natureza da internet.

Carr nos conta uma história: Em 1882, Friedrich Nietzsche comprou uma máquina de escrever. Ele estava com sua visão comprometida e tinha fortes dores de cabeça. Manter seus olhos focados em uma página havia se tornado algo exaustivo e doloroso. Ele foi forçado a reduzir sua escrita, e temia que ele logo teria que desistir. A máquina de escrever o salvou. Pelo menos por um tempo, uma vez que ele tinha dominado digitação, ele foi capaz de escrever com os olhos fechados, usando apenas as pontas dos dedos. Mas a máquina de escrever teve um efeito ainda mais sutil em seu trabalho. Um dos amigos de Nietzsche, notou uma mudança no estilo de sua escrita. Seus textos concisos haviam se tornado ainda mais curtos. (Recomendo o livro ou filme homônimo "Quando Nietzsche Chorou")

Assim como a chegada da imprensa de Gutenberg ajudou a tornar a leitura universal, inaugurando enormes revoluções sociais, Carr diz que a Internet está produzindo uma revolução própria, que vem mais uma vez para mudar toda nossa estrutura. Embora grande parte da revolução seja positiva, ele acha que nós devemos estar cientes de que poderá haver algumas baixas, incluindo a leitura prolongada e tempo para a contemplação.

A Internet está realmente remoldando nossos cérebros?

Claro, tudo o que fazemos remolda nossos cérebros. É assim que nosso cérebro funciona. É assim que aprendemos, através da experiência e da repetição, que é esculpida ao longo do tempo. Com a Internet não é diferente.

Leitura na Internet não é a mesma experiência de ler um livro, não há dúvida sobre isso. E eu concordo com Carr que é mais fácil se perder em um livro do que quando lemos em uma tela, mas eu o acho um tanto radical em suas colocações.

Poderia minha perda de foco ser o resultado de todo o tempo que eu gasto on-line? O quadro que emerge é preocupante, pelo menos para quem valoriza a sutileza, ao invés de apenas a velocidade, do pensamento humano. Quando somos constantemente distraídos e interrompidos, nossos cérebros não conseguem forjar as conexões neurais fortemente e expansivamente, que é o que dá especificidade e profundidade ao nosso pensamento. Nossos pensamentos se transformam em separado e nossas memórias ficam fracas.

Nem todas as distrações são ruins. Como a maioria de nós sabemos, se nos concentrarmos muito intensamente em um problema difícil, podemos ficar presos a uma rotina mental. Mas se deixarmos o problema ficar sozinho por um tempo, muitas vezes voltamos a ele com uma nova perspectiva e uma explosão de criatividade, quem sabe até mesmo com a solução. A distração constante que a internet incentiva é muito diferente do tipo de desvio temporário ou proposital da nossa mente, que refresca o pensamento.

A capacidade de digitalizar e ver uma informação é tão importante quanto a habilidade de ler e pensar, mas este não pode torna-se o nosso modo de pensamento e aprendizagem dominante.

Livros são muito importantes, assim como outros meios impressos. Mas, a internet também é muito importante, bem como a informação (útil) que ela nos oferece. Porém, devemos ter cuidado em relação ao que estamos fazendo com a nossa vida intelectual e até mesmo a nossa cultura.

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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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3 comentários:

Attico CHASSOT comentou:

Estimada Andhora,
fico distinguido por estar referido no teu blogue.
Com disponibilidade sempre

attico chassot

http://mestrechassot.blogspot.com
www.atticochassot.com.br

Atilassauro comentou:

Adorei este seu texto querida. Cada vez mais me impressiono com a sua inteligência e capacidade de expressar-se. Concordo contigo, a internet tráz muitos benefícios ao aprendizado e, como quase tudo na vida, acompanhados dos seus pontos negativos. Claro que, como professor, conheço muito bem essa parcela da juventude que está "desaprendendo" a pensar, passando muito superficialmente por tudo e não se aprofundando em nada. Contudo, seria muito radicalismo generalizar. Não adianta demonizar a tecnologia. O mais importante é haver o equilíbrio. A internet é útil, mas os livros nunca morrerão. E quantos mais diversificadas as maneiras do nosso cérebro aprender, melhor. Beijos sáurios. ;)

pablofisico comentou:

Realmente, a internet tem me atrapalhado muito nos meus estudos, a quantidade de informação que ela tem é imensa. Estava procurando as causas do meu fracasso acadêmico e já tinha chegado a uma conclusão parecida com os argumentos do livro citado.

Pior que eu passo o dia na frente do notebook pq preciso dele e da internet para fazer coisas úteis. Mas então a internet acaba me atrapalhando nos estudos, e quando me dou conta estou lendo ou buscando por algum assunto que me passou pela cabeça... isso tem me tirado a capacidade de concentração.

Acho que vou baixar esse livro, afinal com a internet não há o que não se possa ter acesso :p E isso é bom e é ruim ao mesmo tempo.

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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