Minhas impressões: 2001 - A Space Odyssey (2001 - Uma Odisseia no Espaço)


- sábado, 14 de agosto de 2010
Sempre quis escrever um pouco sobre esse filme (do qual já assisti umas 6 vezes) e compartilhar com vocês minhas impressões acerca desta obra-prima.

Desde que foi lançado em 1968, muitas pessoas vêm discutindo à respeito de como interpretar 2001: Uma Odisseia no Espaço, um romance de Arthur C. Clarke, dirigido pelo cineasta Stanley Kubrick e produzido pela MGM.

Tal discussão é apropriada, levando-se em consideração que o filme trata do quebra-cabeça mais intrigante da vida: o mistério da própria vida, e acredito que, após uma análise rigorosa da estrutura, do movimento de todas as partes em que o filme é disposto, poderemos chegar a uma conclusão.

Temos que ter em mente que Kubrick alegoriza o filme com provas que possuem o intuito de representar o processo de criação da vida.

The Dawn of Man (A Aurora do Homem):

Nesta primeira parte do filme, são apresentadas criaturas semelhantes aos símios. Eles vivem em bandos e disputam território e comida com um outro bando que é superior em virtude do número de membros que o compõe, e que sempre ganhava nas disputas. Pode-se dizer que esta é uma existência estática, pois eles aparentam não apresentar nenhum nível de consciência ou racionalidade. Então, um belo dia, o bando menor se depara com um estranho monolito. Isso desperta curiosidade e espanto entre eles, que se espremem e tentam de alguma forma descobrir o que é aquele objeto estranho que surgiu no "mundo" deles. Enquanto isso, percebemos que a câmera de Kubrick dirige o nosso olhar para cima do monolito, e de cima temos a visão do que seria um nascer do sol em contraste com a lua.


O que o monolito faz inspirar, porém, é o progresso da tecnologia. Pouco tempo depois, esse bando menor descobre as armas - que neste caso, em primeiro lugar, é representado por um simples osso. Motivados pelo impulso instintivo que aparentemente o monolito despertou neles (claro que o corte proposital na cena em que o bando admira ao monolito e logo em seguida a apresentação do hominídeo com o osso, nos intui a sua utilidade destrutiva), os seres hominídeos do pequeno bando adquirem uma vantagem sobre o bando maior e passam a ganhar as batalhas por disputa de território. Este é o primeiro progresso feito pelo homem, e esta é a base de todo o filme: o monolito sempre inspira o progresso, e o progresso se dá através de uma marcha para os seres humanos serem excluídos e excludentes entre si a partir do território, até, que em última instância, reste apenas um.


Dezenas de milhares de anos mais tarde, Dr. Haywood Floyd, um americano, está em sua viagem para Clavius, uma base lunar dos Estados Unidos. Já na base, ele encontra um grupo de russos que ele conhece. (Veja só: A Guerra Fria era uma realidade no período de lançamento do filme.) Ele se senta com eles e, depois de uma conversa superficialmente pequena, porém amigável, ele é questionado sobre o que está acontecendo em Clavius, pois durante 10 dias sem contato telefônico foi negada a autorização para que um foguete russo aterrizasse em Clavius, e isso era uma violação do direito internacional lunar. Os russos comentam que há rumores de uma epidemia grave e estavam ansiosos por qualquer informação, pois estavam preocupados que a epidemia pudesse se espalhar. Floyd afirma, educadamente, que não tem a liberdade de discutir o assunto e pede licença. Logo depois, entendemos a verdadeira razão para que o status da base fosse "incomunicável": o monolito foi descoberto. O rumor da epidemia era apenas para despistar.

Assim, logo percebemos que nesta era moderna, os seres humanos, motivados novamente pelo monolito, criaram novas maneiras pelas quais pudessem excluir um ao outro. Embora sabemos que esse sentimento humano de exclusão não é motivado por um "monolito", mas sim que faz parte da nossa natureza, Kubrick apenas pretende documentar e representar as exclusões pertinentes e particulares para todo o caminho que a história humana, neste filme, abre.

O universo retratado em 2001: Uma Odisseia no Espaço é determinístico e, assim, faz de tudo para servir o seu último fim de que, como veremos, o homem é transformado quando ele, sozinho, alcança o território final (seu objetivo). Não é necessário elucidar que o determinismo que Kubrick utiliza no universo do filme, tem unicamente como fim retratar a existência humana.


Missão Júpiter: 18 meses depois:




Nesta parte do filme, são apresentados David Bowman, Frank Poole, três tripulantes "hibernando" e o computador HAL 9000 (considerado o sexto membro da tripulação) que estão indo em missão à Júpiter. Os tripulantes desconhecem a razão real da sua expedição à Júpiter, com exceção de HAL. O objetivo da missão é investigar a área próxima a Júpiter, uma vez que um pulso de rádio único e poderoso do monolito foi direcionada a Júpiter. Então, agora, o monolito, mais uma vez, inspira o homem tanto a implementação da tecnologia e, eventualmente, através da tecnologia, dar um passo além da lua em direção ao seu destino final.
O monolito obriga o homem a usar sua tecnologia para dar o próximo passo. Assim como a inspiração do monolito foi suficiente para mover a humanidade para a lua, também será essa inspiração que fará o homem se mover para mais além (ou seja, as emissões de rádio emitidas pelo monolito voltadas para as proximidades de Júpiter).

Uma vez perto de Júpiter e, mais significativamente, do monolito (como descobrimos mais tarde), HAL (que [é preciso ter em mente isso] é comparado aos seres humanos) começa a "excluir" os membros da tripulação: primeiro matando Poole e, em seguida, desligando as máquinas que controlavam as funções vitais dos tripulantes em hibernação. Tal ação de Hal é justificada devido ao fato de ter cometido uma falha e os tripulantes David e Frank tinham decidido desconectá-lo. Hal apresenta sentimentos humanos, como orgulho, ambição, medo, mas falha em seus esforços para eliminar David, que consegue desligá-lo. Assim, o destino para qual o monolito leva o homem é mais uma vez explicitado: um homem só permanece.



Júpiter e Além do Infinito:

O comportamento de HAL é parte integrante do destino final do homem, simplesmente pelo fato do funcionamento da máquina determinística, que é o universo do filme, e sua função é a mesma de todas as outras funções nesse universo: que é chegar a um destino final. A razão é inescrutável, mas a motivação é representada pelo monolito; o homem obedece cegamente seu ímpeto, sem pensar na realização do plano traçado para ele. Na visão de 2001, os seres humanos funcionam como milhares de espermatozóides, inconscientes, impelidos a um destino final, a fim de iniciar o novo ciclo de vida de um ser humano único e uma vez que atinge o seu destino final, ele se transforma.

Assim, David Bowman atinge o destino final e é transformado. No momento dessa transformação cientificamente inescrutável, Kubrick desencadeia uma deslumbrante exibição de pirotecnia visual que, embora não admite desmistificação, indica claramente que algo milagroso e além do nosso entendimento ocorre.



Esta é a sua maneira de retratar o mistério da vida. A partir deste ponto, David Bowman, é alterado e reside em um novo domínio, com idade avançada, e encontra-se em um novo ambiente. Então, finalmente, o monolito aparece novamente. Desta vez, porém, não existe tecnologia ou uma necessidade, ou alguém a ser excluído. Em vez disso, ele simplesmente indica a etapa final que David deve fazer (e, ao contrário de antes, nem sequer existe a ilusão do livre-arbítrio, o seu ciclo de vida está claramente em seu fim).



É então que o fim da existência humana gera a existência: ele se torna um feto! Kubrick retrata isso literalmente. A partir daqui, o desfecho é curto: o feto, quase completamente desenvolvido, é levado ao seu novo mundo. Este mundo, aparentemente, é a Terra.




Evidentemente, o fato de que há um processo pelo qual a vida nasce é axiomático e não precisa ser estabelecido. O filme é pertinente em sua exemplificação da possibilidade de ilustrar a existência de um fenômeno sem esclarecer os seus mistérios, e isso é o que Kubrick fez: ele não conhece a força que impulsiona a vida e nem tenta explicá-la, no entanto, como todos nós, sabe que há uma força e um processo pelo qual esta força se manifesta. Kubrick representa a existência desta força (com o tributo adequado para o seu mistério impenetrável) e exemplifica este processo de uma forma perfeitamente adequada: a criação de uma única existência humana que representa toda a história da existência como um inteiro. É uma simetria. Uma circularidade. Um ciclo perfeito que ilustra o que seria a lógica do universo: uma verdadeira Odisseia.

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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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1 comentário:

Bob Mota comentou:

Como sempre a forma como vc escreve é cativante. Post muito bom. Adorei !!

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

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