E o horror foi chamado... Medusa!


- sábado, 21 de fevereiro de 2009
Medusa é um dos monstros mitológicos que, até hoje, inspira o maior número de interpretações. Ao mesmo tempo fascina e destrói. Criatura que enxerga e que faz com que a vítima se veja. Seu poder está tanto no horror quanto no espanto que provoca nos que se deparam com ela.
Numa das culturas que mais valorizou a beleza, o castigo da Medusa foi justamente ter a sua beleza corrompida. Assim torna-se uma visão insuportável para qualquer mortal.
Por outro lado, diferente de outras bestas da mitologia grega, a medusa não andava à solta atormentando os mortais. Então, por que essa obsessão em ir atrás de um monstro retirado do mundo dos vivos? Por que a necessidade de matar quem parecia querer esconder-se até de si mesma? E quem pode dizer o que a vítima enxerga nos olhos da Medusa?
É muito fácil, nas aventuras da mitologia grega, torcer para que o herói mate o monstro. Afinal, "o herói é bom", "o monstro é mau". No entanto, os mitos gregos são mais sutis. É o que veremos a seguir, em um texto de Luiz Antonio Aguiar, que relata o mito da Medusa:

Algumas lendas relatam que a Medusa fora uma bela jovem, a única das três Górgonas que não era imortal. Filha da deusa marinha Ceto e de seu irmão Fórcis, ambos filhos de Poseidon, deus de todos os oceanos. Medusa tinha outras duas irmãs, Esteno e Euriale, que tinham serpentes no lugar dos cabelos, presas de javali, mãos de ferro, asas de ouro e o corpo de escamas. Já Medusa era totalmente humana, e seus cabelos, como ondas de um oceano revolto, encantavam a todos.
Medusa foi consagrada a Palas Atenas, e tornou-se uma de suas sacerdotisas, jurando manter-se intocada para sempre, em devoção à deusa. Mas foi no templo da própria Palas que Poseidon, o avô de Medusa, aproximou-se dela. A moça fascinada e vaidosa por ter despertado a paixão de um deus tão poderoso, irmão do rei dos deuses, Zeus, cedeu ao senhor dos mares. No entanto, Palas ficou furiosa com a profanação de seu templo e amaldiçoou Medusa:
- Sua beleza lhe será tomada. de hoje em diante, você será tão horrenda como as suas irmãs. E pior: será o pesadelo dos mortais, porque todo aquele que fitar seus olhos será transformado imediatamente em pedra, e morrerá.
E assim foi. Medusa viu seus cabelos se transformar em serpentes, suas feições e seu corpo se deformar de repente, e precisou se retirar para um esconderijo no extremo da Grécia, junto ao país das Hespérides, as ninfas do poente, que, por ser o lado do mundo onde se punha o sol, muita gente acreditava ser uma região de escuridão eterna.
Aos poucos, entretanto, uma transformação mais profunda aconteceu. O que restava de humanidade em Medusa foi se apagando e ela se tornou um monstro também no espírito, como se a cada pessoa que petrificasse vingasse sua beleza perdida. Muitos foram aqueles que penetraram em seu antro - uma caverna cujas profundezas a luz jamais havia tocado - tencionando matá-la, e viraram estátuas de pedra ao se deparar com a fixidez de seu olhar.
Os anos se passaram e, muito longe dali, Acrísio, rei de Argos, recebeu uma profecia segundo a qual sua filha, Danae, uma lindíssima jovem, daria à luz um filho, que seria também filho de um grande deus. A profecia seguia dizendo que o filho de Danae mataria Acrísio.
Para evitar o cumprimento da profecia, Acrísio trancou sua filha numa câmara subterrânea feita de bronze, sob a guarda de uma ama. Só que a essa altura, o grande deus, que não era outro senão o próprio Zeus - justamente o mais lascivo de todos os imortais - já estava irremediavelmente atraído por Danae. Encontrando uma fenda na câmara de bronze, Zeus penetrou nela sob a forma de chuva de ouro e engravidou a princesa. Foi assim que nasceu um dos maiores heróis gregos, Perseu.
Quando Acrísio descobriu o que havia acontecido, mandou executar a ama. Depois, esperou o menino nascer e encerrou-o numa arca de madeira junto com a mãe, e os atirou ao mar. A arca flutuou sem rumo até a ilha Séfiro, cujo rei era Polidectes, que logo se apaixonou por Danae.
Acontece que, muito orgulhoso de sua descendência divina - que de fato atemorizava Polidectes -, Perseu não deixava o rei se aproximar de sua mãe. Cresceu então aquele garoto predestinado, até certa ocasião em que Polidectes ofereceu um jantar a seus amigos. Em dado momento, o rei desafiou seus convidados a lhe darem, cada um, um presente digno dele. Todos os presentes à mesa logo se apressaram a oferecer ao rei o melhor cavalo de suas estrebarias. Menos Perseu.
O jovem alegou que um presente digno de um rei só poderia ser a cabeça da Medusa, e prometeu que a traria de presente para Polidectes.
Um silêncio constrangido se fez na mesa. A Medusa... bastava esse nome para causar calafrios. A Medusa era um ser dos pesadelos, uma aberração infernal habitando a terra, uma criatura que se pudessem, todos esqueceriam que existia. E ali estava um jovem inexperiente, que nem sabia quantos guerreiros e heróis haviam morrido na tentativa de exterminar o monstro, achando-se capaz de exterminá-la.
O rei imediantamente aceitou a oferta, antes que Perseu se arrependesse. Era a oportunidade de se livrar do jovem e poder, enfim, ter Danae para si. Quando percebeu a besteira que havia feito, Perseu ficou desconsolado. Não haveria com ter êxito numa empreitada dessas. Mas não havia também como voltar atrás sem ficar desmoralizado diante de toda a corte de Polidectes - e isso Perseu não admitia. Preferia morrer.
Foi então que Palas Atenas, deusa da sabedoria, protetora dos heróis, aquela que espanta a escuridão, e Hermes, o que não se perde nas trevas, colocaram-se ao lado de Perseu:
- Você deve fazer o seguinte, Perseu - ordenou-lhe Palas Atenas. - Primeiro irá com Hermes ao país das sombras eternas e descerá às profundezas onde moram as Gréias, as Velhas. São três criaturas assim chamadas porque já nasceram velhas. E são também as únicas que sabem o caminho para o antro das Górgonas, entre elas, a Medusa. As Gréias estão lá justamente para protegê-las, mas com a ajuda de Hermes você irá obrigá-las a revelar-lhe o segredo. As Gréias possuem um único olho para as três, e se revezam usando-o para vigiar os intrusos. Elas conhecem, ainda, onde se escondem as ninfas que guardam determinados objetos sem os quais você não poderá enfrentar a Medusa. Você precisa obter das Gréias também esses objetos.
Chegando a caverna das Gréias, Hermes instruiu Perseu a roubar o único olho que possuíam. Muito ágil e rápido, o jovem atacou a Gréia que estava de guarda e lhe arrebatou o olho, prometendo devolvê-lo se lhe dessem o que ele queria.
Com isso, Perseu não só recebeu a indicação de como chegar ao antro da Medusa, como ganhou ainda, das ninfas, sandálias com asas, uma sacola chamada quíbisis e o capacete de Hades, que lhe daria invisibilidade. De Hermes recebeu também uma espada de aço de gume bastante afiado e, de Palas Atenas, seu escudo de bronze, emprestado, com a superfície tão polida que parecia um espelho.
Hermes e Palas Atenas lhe deram instruções precisas de como fazer para matar a Medusa. O que deveria evitar a todo custo era olhar nos olhos dela, porque aí estaria perdido - viraria pedra.
O caminho foi muito difícil porque as monstruosidades viviam em profundezas que quase penetravam nos reinos infernais. Mas Perseu avançava confiante, e conseguiu chegar ao antro das Górgonas. Encontrou-as dormindo.
Colocando o capacete de Hades e as sandálias com asas, Perseu ficou pairando no ar logo acima da Medusa, invisível, aguardando o momento de atacá-la. O monstro despertou de um sono sem sonhos que os mortais pudessem compreender.
Ou talvez tenha sonhado com sua imagem, quando ela era uma das mais belas mulheres da Grécia, e isso sempre fazia suas entranhas se revolverem de agonia e rancor.
Ou, talvez, ainda, tenha pressentido, de algum modo, uma presença estranha em seu esconderijo, porque as serpentes em sua cabeça começaram a se agitar e a sibiliar furiosamente.
Para agir de acordo com os seus planos, Perseu precisava tornar a ficar visível, pois devia fazer a Medusa olhar diretamente para o escudo de Palas Atenas. E sem cruzar os olhos com os da Górgona, o que era bastante difícil, porque - assim se dizia - a Medusa também tinha poderes que obrigavam os mortais a fitá-la. Perseu precisava agir com rapidez.
Ele então tirou o capacete de Hades, agachando-se atrás do escudo para proteger-se do olhar da besta. Assim que o viu, a Medusa se voltou para ele, cravando-lhe seu olhar petrificante. Mas o que o monstro viu, em vez da face de Perseu, foi o seu próprio rosto... e seus olhos, brilhantes de maldade, fitando-a.
Olhar bem dentro de seus próprios olhos foi o fim da Medusa. Ela virou pedra e, com um golpe da espada dada por Hermes, Perseu a decapitou. Tudo aconteceu tão rápido que as duas irmãs da Medusa não puderam socorrê-la. Logo, Perseu enfiava a cabeça da Medusa na sacola que recebera das ninfas - é que o poder de petrificar quem olhasse em seus olhos continuava a existir, mesmo com a cabeça decepada, mas a sacola evitava que isso acontecesse. Só que agora as outras duas Górgonas, recuperadas da surpresa, atacavam Perseu. Não podiam transformar o jovem em pedra, como faria a irmã, mas eram inimigas formidáveis.
Então, naquele instante, do sangue que escorreu do pescoço da Medusa, nasceu Pégaso, o cavalo alado. Um lindo corcel branco, destinado a revoar pelas nuvens e a servir de montaria a outros heróis, quando fossem praticar grandes feitos. Perseu montou-o imediatamente, escapando das Górgonas e do antro em que viviam.
A cabeça da Medusa seria dada como oferenda a Palas Atenas - e claro que o rei Polidectes não teve como reclamar por ter perdido para a deusa o presente que lhe fora prometido. Atenas colocaria a cabeça da Medusa em seu escudo e dela se serviria para transformar em pedra seus inimigos. Perseu, montado em Pégaso, num dia ainda futuro, salvaria uma jovem chamada Andrômeda das garras de um dragão, e com ela se casaria.
Quanto à profecia em relação ao seu avô, certa feita de Perseu participara de jogos públicos, diante de uma platéia de vários reis. Acrísio estava presente, sem saber que aquele jovem que vinha se destacando nas diversas provas era seu neto. Em determinado momento, embriagado com os aplausos, Perseu lançou um disco de maneira tão desastrada que a peça foi rodopiando em direção à tribuna de honra e esmagou a testa de um dos espectadores. Era justamente Acrísio - a profecia havia se cumprido.
- FIM -

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.:: Andhora Silveira ::.

É graduanda em Ciência da Computação. Ama ficção científica,
histórias em quadrinhos, heavy metal, livros, física, astronomia e tecnologia.
É uma leitora exigente e gosta muito de escrever. Vida longa e próspera.

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